segunda-feira, 3 de agosto de 2015

A PAREDE TEM OUVIDOS

 Arte de Eduardo Nasi

Compaixão é um sentimento que não gosto de sentir, evito sentir, me maltrata sentir.

Mas sempre vem à tona quando vejo pessoas que conversam sozinhas nas mensagens. Desenvolvem um diálogo com elas mesmas. Somos o destinatário por uma simples casualidade – elas não aguardam uma resposta. Perguntam algo e retrucam imaginando qual foi a nossa reação e continuam o papo com réplicas e tréplicas de algo que jamais respondemos.

Tenho contatos fantasmas, gente que não cansa de falar comigo não falando comigo. Não digo nada e elas vivem dizendo por mim, decifrando o meu silêncio como satisfação de voyeurismo. “Sei que adora me ver falando e falando sem parar!” E nem conheço a vivente. Surge de um inbox no Facebook. Eu me espanto que, em uma semana, já tem cinquenta blocos de texto de uma pessoa desconhecida agindo com falsa intimidade, com todos os parágrafos dirigidos para mim ora me elogiando, ora me insultando, ora agradecendo a minha mãe pelo meu nascimento, ora encomendando meu vodu. Torno-me endereço platônico de sua vida vazia e de sua falta de amigos.

Não há como acalmar dizendo qualquer coisa ou atendendo alguma das interrogações. São missivas insaciáveis. É ausentar-se um minuto e estão denunciando abandono ou reclamando que “diante da indiferença, não vão mais incomodar”. E logo incomodam com mais empenho e vontade, contrariando suas conclusões anteriores.

Na minha infância, louco era o que falava sozinho nas ruas. Gritava e cantava sem nenhuma interlocução, recitando seus pensamentos desordenados, impondo seus desatinos em voz alta pelas praças e bares. Existe uma outra loucura contemporânea, agora digital, de quem fala sozinho nas redes sociais e aplicativos. Escreve por dois solitariamente, compulsivamente, ansiosamente.

Adoeço de pena. Não sei como ajudar.

Lembro que minha mãe sempre pedia para um dos filhos lavar a louça, todos se disponibilizavam, só que ela jamais esperava dez minutos após a refeição para que um de nós cumprisse a tarefa prometida. Chegávamos na pia e estava tudo lavado e ainda lamentava: – É que demoraram!

Não respeitava o tempo de cada um. Acho que ela queria mesmo contar com o prazer de se elogiar nos usando como paredão.

Assim é que identifico a troca unilateral de mensagens: acabo sendo a parede que escuta. A minha ausência faz com que o outro se perceba mais presente.






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira 29/07/2015

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