terça-feira, 9 de outubro de 2012

CAIXINHA DE FÓSFOROS E SURPRESAS


Minha mulher tinha a mania de colocar os fósforos usados de volta para a caixinha.

Assim que riscava, guardava os palitos velhos com os novos.

Nunca colocava fora, apesar da facilidade do lixinho branco em cima da pia.

Nem acho que era pressa, mas hábito. Tentei adverti-la uma vez, duas vezes, até que estava sendo desagradável e desisti (quando marido se assemelha a um pai, é o momento de calar a boca).

Mesmo disposto a me adaptar e não comprar briga, eu me irritava com aquela roleta-russa toda manhã. É evidente que pegava de imediato uma série de fósforos queimados – não sei se você sabe, mas sou o autor da Lei de Murphy na Câmara de Vereadores de Porto Alegre.

O azar me premiava. Jamais retirava de cara a cabeça ruiva da caixinha amarela. Sacrificava preciosos minutos para preservar a chatice da esposa.

Acender incenso, acender fogão, acender vela reivindicavam o suspense do sorteio, a contagem de votos da eleição. E muita paciência para não gritar um bom desaforo ao longo da porta.

Aquilo era ainda mais claustrofóbico para quem aprendeu a tabuada separando grãos de feijão e fósforos. Reproduzia o terror das provas orais, das superações matemáticas.

A caixa não se abria como uma caixa, e sim se aprofundava como uma gaveta desorganizada, uma bolsa de mulher, um armário de solteiro. Solicitava o dobro de cuidado para revirar o fundo e contornar as pontas com o tato.

Eu me enxergava penalizado, diferente de qualquer pessoa normal, que apenas riscava o fulgor e não pensava.

Sofri dois anos com minha indisposição.

Somente hoje reparei que gosto imensamente da dúvida, da possibilidade de colher um fogo extinto ou um fogo vivo.

É uma ansiedade feliz. Uma expectativa pequena, porém agradável.

Encaro o fósforo e confiro se ele tem a pólvora intacta, se vai explodir sua cabeleira loira e azul. Faz sentido, porque liberdade significa manter nossa disposição para se surpreender dentro da rotina.

Presto uma maior atenção na chama, no seu desenho e som. Descubro que o fósforo é um relâmpago em miniatura, tão bonito quanto os raios que cortam os morros e céus. Solto uma risada infantil assim que ele mantém sua auréola firme.

Amar a si próprio é esse movimento: não se resignar, não se conformar com o que foi feito, não mergulhar na repetição desanimada dos dias: olhar cada lembrança de frente e ver se ainda queima. Olhar cada palavra de frente e ver se ainda queima. Olhar cada atitude de frente e ver se ainda queima.

E incendiar a nossa vida na vida do outro.




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 09/10/2012
Porto Alegre (RS), Edição N° 17217

21 comentários:

Joyce Figueiró disse...

Ih, olha a crônica aí! Muito bom presenciar as contrações pré-parto dela. =)

A vida é mesmo uma caixinha de fósforo. O problema é que as pessoas não tem paciência pra analisar a cor ou a textura dos palitos pra ver quais ainda não foram usados... Acostumaram-se à força bruta, vão testando até achar um bom, ou desistem logo, fazem o que eu fiz, compram um isqueiro.

Joyce Figueiró

Carlos Kurare disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Kurare disse...

Texto delicioso Carpinejar, parabéns!
Eu, por mim, teria trocado os fósforos por um acendedor ou a mulher por... um acendedor!!! rsrs
Afinal: "O que não me mata... me aleija!" "Carlos Kurare)

Sobrevidente disse...

A gente se adapta as manias do outro e elas se tornam nossas companheiras.
Mesmo que o outro vá, deixa as manias para nos lembrar que estiveram ali.

Muito perfeito

ana disse...

Toda paixão verdadeiramente profunda contém em si o seu contrário ...
( Mario Soldati)

Claudia disse...

Muito bom.Quando a relação foi intensa, deixa marcas na alma. Até as particularidades do cotidiano tornam-se poesia...

Anônimo disse...

o engraçado, quando se ama.
é que agente se lembra de coisas bobas mais que trazem grandes saudades.adorei o texto. MONICA RAMOS

Katia Barros disse...

Carpinejar ! CASA COMIGO?????
bj seu lindo.

Pedro André Ludwig disse...

ahhhhhh, mas tu podia ter pego uma caixa de fósforos só pra ti né... evitava toda essa maluquice... rsrsrsrsrsrs

Aletheia disse...

Que delícia ler tuas crônicas...
Mas, terminado o relacionamento, o que era chateação, se transforma em poesia? Isso é bom pra quem lê o que tu escreves, mas não é muito cruel contigo?

Camila disse...

Conformação deveria ser o primeiro nome para morte. Desamor deveria ser o sobrenome.

Surpreendamo-nos!

beijos daqui...

A viajante disse...

Te admiro faz tempo. Te sigo no facebook e cito sempre suas frases de efeito e textos que me afetam, entre os amigos românticos.
Hoje a inspiração fez nascer um post em meu bloguito. Visita se achar interessante como é que se dá esse efeito borboleta.

Beijo e queime-se.

http://foiassimdoispontos.blogspot.com.br/2012/10/eu-falo-por-mim.html

Anônimo disse...

Tenho impressao.que vcs voltaram. Comecou o texto com "minha mulher" e nao "ex". Alem do mais, impossivel nao notar uma certa animacao nas palavras!

Carpinejar disse...

É só impressão, querido. O texto está no passado. bj

Anônimo disse...

Coisa mais deliciosa de ler, parar e refletir. Amo passar por aqui e me enriquecer com você. Grande e carinhoso beijo.
Sônia Claro

Marcelo Suprassumo disse...

E colocar a mão no fogo por ela e sentir que ainda queima =)

Luzia Trindade disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

pensei q tinham voltado, já comemorava...mas, foi engano =(

Maíra da Fonseca Ramos disse...

Gosta da sua maneira de ver coisas simples, como acender um fósforo. Pode até ser uma metáfora de vida...

Dani Brandão disse...

eu também faço isso mas coloco o palito ao contrario na caixa, para não me confundir quando usar o próximo.

ganhar dinheiro disse...

parabens pelo belissimo blog, acompanho o mesmo desde 2010, recomendo a muitas pessoas. Parabens