quarta-feira, 26 de maio de 2010

VOLÚVEL

Arte de Tereza Yamashita


Não gostava da escola, mas do cheiro de caderno novo, da caixa de lápis de cor com as pontas finas, dos livros com as páginas grudadas. Do primeiro dia de aula em que desfraldaria o material e descobriria se a turma permaneceria a mesma.

Mantenho o deslumbramento pelas estreias. Curto me inscrever em academia de musculação. Pago adiantado dois meses para doer os bolsos e fundamentar a disciplina. Marco o compromisso de madrugada, disposto a não correr riscos de cruzamento com outras atividades. Aviso que não vou de carro, e sim de bicicleta para fortalecer o aquecimento. Fico excitado com a possibilidade de viver até os oitenta anos, morar em Veranópolis e participar das estatísticas de longevidade do lugar.

Com a matrícula na mão, passo a noite inteira comentando a guinada nos hábitos, o quanto não irei adiar mais os cuidados com o corpo, que a intenção nem é alcançar um porte sarado, inadequado ao meu tipo físico, quero procurar mais saúde nos hábitos. Eu me ironizo, resmungando que não dava para continuar assim, que meu peitoral apenas fica rijo de tensão. Desfio, então, o típico discurso de morrer bem velhinho e tarado. Não percebo que é o que todo sedentário diz.

Minha namorada Cínthya, que corre oito quilômetros no domingo e realiza ginástica três vezes por semana, pensa que finalmente tomei jeito.

Faço o exame médico, compro halteres, roupas e tênis, redireciono a casa a atender às exigências esportivas. Compro até espelho no quarto para treinar nas folgas e não sonegar os movimentos dos abdominais.

No dia inaugural, é uma maravilha, já falo como um atleta, com postura ereta e controlando datas das próximas provas de maratona na internet. No segundo dia, chego trinta minutos atrasado (é inverno e dormi tarde) e encurto com pesar a sequência de exercícios. No terceiro dia, já não compareço pela correção acumulada dos trabalhos na universidade. No quarto dia, academia? Que academia? Já foram oito em cinco anos. E desisto sem ao menos perguntar o nome do professor.

Não duro em meus planos, a não ser que sejam necessidades. Mas nunca transformo objetivos em necessidades. Sou fogo de palha, um tipo curioso: o volúvel previsível.

Foi igual com curso de italiano, ioga, dança de salão e tênis. Eu me apresentava aos colegas, justificava a mudança gloriosa de costumes e logo abandonava os planos culpando o excesso de trabalho.

As lorotas são de um viciado, que defende a recuperação em casa e anuncia que o fim das drogas é mera questão de força de vontade.

Desisti de me enganar quando tentei subornar uma máquina de farmácia. Atingi o fundo do poço.

É aquela branquinha, com visor verde, que mede o índice corporal a partir da altura e do peso.

O estabelecimento estava vazio, aproveitei a quietude das prateleiras, o tédio dos funcionários para consumar a fraude. Pisei no tapete da balança gigante. A voz metálica ordenou que colocasse R$ 1. Perguntei se ela não tinha filhos para sustentar e não aceitaria receber quatro vezes a quantia. Abri a niqueleira ruidosa e mostrei a tentação. Como ela silenciou, enfiei quatro moedas garganta abaixo.

Orgulhoso da propina, ergui o peito e esperei o canto.

Ela meio que engasgou, piscou como um brinquedo Genius em sua última fase, deve ter sofrido uma crise de consciência, mas colocou a língua para fora.

Peguei o bilhete:

140 kg, 1m50, IMC 62,22

A única coisa que irá morrer de velho em mim é o discurso.




Crônica publicada no site Vida Breve

19 comentários:

juliana disse...

kkkkkkkkk....muito bom Fabro, você é hilário.
Espero que nunca percas mesmo o teu discurso, quero envelhecer te lendo e dando boas risadas.
Te adoro.

O Neto do Herculano disse...

Desistir de me enganar
foi o meu maior engano.

Anônimo disse...

Se eu cumprisse todas as metas perderia a inspiração para escrever.
Acho que eu preciso tentar me compensar.
Não tenho certeza, nunca persisti.
Prefiro não arriscar.

Caroline Rodrigues disse...

Tô rolando de rir, porque os fatos ficcionais(??) aqui relatados são mera coincidência(??) com a minha vida real. kkkkkkkkkkkk

Mas subornar máquina da farmácia eu nunca subornei.

Você é ótimo! E dá licença, Cynthia, de amarmos o seu homem.

Rita disse...

Eu descobri um jeito, em relação à outra academia: fazer três cadeiras por vez, e não desistir, mesmo que demoooore e o diploma saia meio tosco... Afinal, ia demorar ainda mais começar tudo do começo. Quanto a essa academia, tu podes fazer a mesma coisa: se estás pesando 140 kg, tu podes muito bem ir empurrando com a barriga, e não parar. Alguma coisa é sempre melhor do que nada, é a minha filosofia agora :)

Luana Gabriela disse...

hahaha Fabrício, tome jeito. Não queira entrar para a extensa lista dos artistas excelentes desse país que morreram cedo, ok?

É possível haver poesia até no ambiente da academia eu que o diga, Fabro! Hj tem esteira e bicicleta.

Bjos

Anônimo disse...

Desculpa Fabro, mas "Minha namorada..." seria um ato falho?
Tipo um Canalha Perdigueiro? (rsss)
Parabéns por mais livro publicado!

Amato Netto

Tati disse...

Adorei o suborno à máquina. Era mesmo brasileira? Tem certeza? Beijos.

Maria Claudia Mesquita disse...

já estou na terceira semana. um dia eu tomo coragem e brinco com a máquina. apesar de parecer brinquedo de parque de diversões, tenho medo do papel que ela cospe.

bj

Jééh disse...

kkkkkkkkkkkkkkk, nuuss ri alto
uso um monte dessas desculpas pra ir adiando a academia, mas nunca tentei subornar a maquina, vc é uma comédia Fabro ^^

Anônimo disse...

Mto bom, hj foi o Dia do Desafio, será que vc pelo menos fez alguma atividade física?!!?!! Eu fiz não pq 'gosto mto' mas para incentivar os alunos do colégio em que trabalho. beijos Fabricio, vc é ótimo

Nani disse...

Então não sou apenas eu que tenho absoluto pavor de permanecer com os planos que traço, sejam eles quais forem?

Eu costumo me justificar/defender dizendo que "prefiro ser uma metamorfose ambulante"... Mas esta minha inquietude, esta minha impermanência, algumas vezes me cansa. Não te cansa?

Anônimo disse...

Senhor "Porque você faz poema", se leva alto e a sério. Tem que parar com as frases de séquito... Efeito não Seca a água desse caco -

Ninguém vai te zoar, sem espelho nem vai te reconhecer.!.((-:

Anônimo disse...

Não embarco em regras de "vida saudável" há muito tempo.
Regras que fazem bem são aquelas que não escravizam.
Achei oportuna a ideia de corromper uma máquina de farmácia. No meu caso, ela certamente dará 1,95m, 85 kg e IMC, pasmem, "perfeito"!
Apesar de fisicamente bem diferentes, somos univitelinos na atitude.

Anônimo disse...

Rolei de rir com a parte da academia. *rs*

Você é demais, Fabro!

Tati.

Ela disse...

suas desculpas são as desculpas do mundo.
Vez ou outra a gente sempre se desculpa

Raquel Marques disse...

Esse texto foi inspirado em mim?

Não é possível que existam duas pessoas assim no mundo.

Todos dizem que sou tão gauche nesta vida...

Anônimo disse...

Òtimo texto...divertido,envolvente.No fundo, somos todos mais semelhantes, menos originais e muito, muito mais òbvios do que supomos!

Anônimo disse...

Essa inconsistência acaba deixando alguma coisa no fundo do baú. Só não acumula coisa alguma,se você não chegar a ir lá... na academia... ou aonde mais for sua proposição inicial...Vai à primeira aula de música e aprende o sol... Vai à primeira aula de literatura e conhece um autor,pelo menos... Aos 80 anos você tem uma porção de coisas pelas quais você passou e... juntou muita tralha no seu baú.