quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

ANOTAÇÕES SOBRE A SAMAMBAIA

Ninguém foi condenado por matar uma samambaia. Nenhum solteiro, nenhum casado em crise. Sempre ela é vista como suicida. É ela que desistiu, nunca é culpa da falta de cuidados.

A família sai de férias, não é carregada junto, não inspira instruções para quem fica.

Ela é abandonada, como um zelador dos objetos.

Não se compra uma samambaia, recebe-se de presente. Como veio de graça, assim ela é ainda mais esquecida.

Sua aparência de mato engana, confundida com um arranjo de buquê sem as rosas.

A samambaia termina com alma de flor de plástico.

Como não oferece sementes, como não floresce, tem o preconceito dos românticos.

A samambaia poderia andar nua pela casa e não chamaria atenção. Nasceu camuflada, camuflada de si mesma. É apenas percebida com a chegada das borboletas. As borboletas são as suas roupas.

A samambaia não mete medo como uma lagartixa. Ela existe, mas não existe. Tem uma desvantagem em relação à lagartixa: não tem paredes para correr.

O fato de ocupar o alto faz com que não seja valorizada. Parece que não é dali, parece que está voando, de passagem.

A samambaia é uma pipa que foi montada e jamais ganhou o céu de uma criança.

Não se conhece o desejo de uma samambaia, a sua felicidade, o seu esporângio.

Escora-se nos lamentos do vento, uma planta triste de unhas compridas. Talvez uma manicure resolvesse o seu dilema.

A samambaia sofre de complexo de inferioridade, mas não consegue encolher. Ela cresce, inclusive, quando falece.

A samambaia é confundida com o cacto. Só que o cacto sobrevive, a samambaia não. O cacto bebe mais pedra do que água.

Lembra um cachorro, pula em cima dos móveis, abana o rabo, lambe o rosto e se esfrega em quem se aproxima. Pena que o dono não compreende as suas folhas como uma língua para fora.

Morre de sede porque todo mundo pensa que alguém já deu água para ela.

DÊ UM DESCONTO AO AMIGO QUE VIVE UM MOMENTO DIFÍCIL

Não estrague a amizade porque o seu amigo anda chato. É uma fase. Pode ser falta de dinheiro, problemas familiares, um amor doente que ele fracassa em desatar.

Mas cuidado para não tornar definitivo o que é provisório. Ele está chato, não é chato. Rememore o quanto vocês se conhecem, o quanto viveram de cumplicidade e segredos, o quanto superaram adversidades e desilusões.

Não vale a pena sacrificar uma história inteira feliz por um dia ruim. Uma indiscrição, uma grosseria e uma aspereza não significam que tudo foi em vão. Pondere, todo amigo tem o direito de errar e explodir, de incomodar e se desculpar.

Não converta a falta de sintonia passageira em distanciamento permanente. Desfazemos grandes lealdades por bobagens. Transformamos desentendimentos, resultantes de uma crise pessoal, em divergências irreversíveis da relação.

Com uma propensão imediatista, enxergamos somente o período turbulento e desagradável, e esquecemos de reconhecer o companheirismo anterior. Falta-nos paciência para encarar as lamúrias e contextualizar os ataques. No lugar de respirar um pouco e oferecer um desconto, tratamos de responder as agressões com violência.

Dê um tempo para o amigo, afaste-se por uma semana, crie saudade de um mês, porém não destrua os laços em função de uma implicância. Às vezes ele não quer ser ajudado, às vezes não há como socorrer aflições, às vezes ele não desfruta de condições para escutar seus conselhos, às vezes ele ofende jurando que vem sendo apenas sincero.

Deixe estar. Não fique perto, abra espaço para que ele reflita e se acalme, não se apoie na raiva que aumenta o desconforto e intensifica as retaliações. Evite desligar o telefone na cara, controle-se para não cobrar a devolução dos presentes e afetos, silencie antes de estabelecer ultimatos, contenha-se para não misturar medos antigos com os novos e realizar chantagens emocionais, recue no bate-boca, fuja da conta da culpa e, concordando ou discordando, diga que vai pensar e que retornará depois. Por enquanto, feche as janelas e conserve a porta aberta.

Entenda que as melhores companhias nem sempre são boas companhias. A simbiose que existe numa amizade, de um espelhar o outro, de um ser o outro, é perigosa. Quando alguém pretende se destruir, leva junto quem vive próximo. Os confidentes são os primeiros a sofrer maus-tratos.

Amizade é também prever o momento de se retirar para voltar com mais força e amor redobrado.

SENSAÇÃO TÉRMICA DA PERSONALIDADE



Emoções são fatos. Não dá para desprezar como alguém sente uma experiência, ainda que esteja aumentando a importância do ocorrido.

A versão é a verdade de cada um. É o jeito que a pessoa percebeu emocionalmente uma cena. É o que ela pode entender ou aceitar, de acordo com a sua formação, os seus tabus e preconceitos.

Para alguns, mentir sobre a demora na entrega de um trabalho é motivo de demissão. Para outros, é educação. Para alguns, a deslealdade é motivo de separação. Para outros, é sinal de imaturidade e merece o perdão.

Tem gente que desculpa a infidelidade, tem gente que vira as costas e nunca mais oferece uma segunda chance.

Eu parei de provocar a minha irmã com berros fantasmagóricos de surpresa quando notei que ela começava a chorar, exatamente os mesmos sustos que produziam risos consecutivos em meu irmão. O contentamento de um é a tristeza do próximo.

Não há como antever como os outros vão reagir sobre os dilemas e impasses da vida. É o que chamo de sensação térmica da personalidade.

Assim como a temperatura pode registrar 30 graus e a sensação térmica ser de 40 graus, o sofrimento de um amigo ou familiar pode ser bem maior do que o tamanho da realidade, o que não invalida o desabafo.

O nordestino pode se cobrir de casacos em passagem pela Serra no verão enquanto os moradores desfilam de camiseta, a impressão é que manda.

Uma tentativa frustrada de assalto talvez renda mais desespero do que alguém que sofreu um sequestro.
Há a ciência do tempo, há a meteorologia, mas também as alterações sentimentais do cotidiano.
Toda pessoa é um idioma à parte.

Temos que nos preocupar com os efeitos da dor mais do que com a precisão dos acontecimentos.
Não se deve desmerecer a conversa porque o assunto não nos interessa. Ou julgar com os nossos próprios referenciais.

Para quem sabe nadar, o medo da água é ridículo. Para quem gosta de show, o medo da multidão é patético. Para quem dança, as coreografias da micareta são fáceis.

Esquecemos de ponderar sobre a sensação térmica do coração.

Não me incomodo com os passionais, os dramáticos e os operísticos. Respeito os efeitos especiais da linguagem. O exagero é uma forma de dizer o que está incomodando e de diminuir a angústia com as palavras.

AQUELE QUE SOFRE MENOS


Foto de Gilberto Perin

Quem não recordava o aniversário de namoro, do primeiro beijo, da primeira transa, não era capaz de reconstituir onde se conheceram, com que roupa estavam vestindo, sofre menos com a separação.

Quem não tenta fixar o último beijo, reprisar a última frase, recuperar a derradeira mensagem, sofre menos com a separação.

Quem não colecionava fotos, não se preocupava em guardar pasta do casal nos meus documentos, sofre menos com a separação.

Quem não tinha fé quando faltava compreensão sofre menos com a separação.

Quem não comemorava os meses quebrados, depois os anos inteiros de relacionamento, não fazia a ordem cronológica dos diálogos, não recuperava as grandes piadas, não conservava os maiores encantos, sofre menos com a separação.

Quem não trazia as alegrias para as brigas, mesmo as minúsculas, para suavizar a raiva, sofre menos com a separação.

Quem não desenvolvia dialetos, expressões, não dava apelidos carinhosos, não infantilizava e envelhecia o outro para recuar e avançar em todos os tempos da vida, sofre menos com a separação.

Quem não abria a agenda para preparar jantar em casa, regado a vinho e músicas prediletas, quem não telefonava para avisar da lua cheia no céu, sofre menos com a separação.

Quem não criava presentes, não escrevia cartões e cartinhas antes de sair em viagem, quem não preparava declarações públicas nas redes sociais, sofre menos com a separação.

A dor é memória multiplicada, do que aconteceu e, em especial, do que não aconteceu.

Só sofre quem se comprometia a lembrar de tudo porque nada era insignificante.

Homens e mulheres de pouca memória estão salvos, não conhecem a angústia do amor.

FESTA DA FIRMA

Arte de Eduardo Nasi

A festa da firma é uma segunda entrevista de emprego. Ou seja, não é festa, é o velório da sinceridade. Não se trata de uma confraternização, mas de uma delação disfarçada.

Como você ficará à vontade sabendo que não pode beber, não pode dançar loucamente, não pode contar piadas, não pode falar mal de ninguém, em especial de seu chefe? Carregue um “Google tradutor” embutido em sua boca para converter o gordo, o careca, o idiota e o imbecil em colaborador, integrante do time e parte da família.

Para que largar o conforto do lar? Não tem sentido, o equivalente a dizer que cocô de passarinho na cabeça traz sorte.

Mas, se não aparecer, o povo comentará que é azeite, prepotente, não quer se comprometer e que dispensa as relações interpessoais.

O que é obrigação nunca será diversão. A risada precisa ser cínica e controlada, pois a gargalhada já indicará alto teor alcoólico. É recomendável que seu figurino não chame a atenção. Não use combinação extravagante, muito menos formal em demasia. Em suma, irá com a mesma roupa que costuma trabalhar.

Bajulação é desagradável, assim como a honestidade. Cumprimente a todos, não puxe assuntos a fundo. Jamais traga problemas pendentes do ambiente corporativo, e igualmente não abra a sua vida. O correto seria não existir marcando presença.

Como não há meio-termo na descontração, é mexer o tronco dentro de uma camisa-de-força.
Tocará funk e não descerá ao chão. Tocará sertanejo universitário e não levantará os braços. Nem “Lepo lepo”, nem “Paredão metralhadora” serão capazes de abrir a pista para coreografia, qual a graça?

Você deverá recusar tudo o que é bom. Não deve comer em excesso para não ser morto de fome, não deve se envolver com a colega para não misturar amor e emprego. Em hipótese alguma, não ser o primeiro a chegar e também não inventar de ser o último a sair (nenhuma festa é inesquecível se saímos cedo, não é verdade?).

Encontro da firma não é lazer, e sim hora-extra no final de semana e adicional noturno. Só os estagiários não entenderam isso e brindam ao futuro, ingenuamente alegres, com seus copos de plástico.

BRIQUE DO AMOR

A campanha de agasalho era dentro de casa. Eu recebia as roupas do irmão mais velho e o irmão mais novo recebia as minhas roupas. Não havia banho de loja. Fui do tempo em que não existia shopping center.

Herdei calças e camisas do Rodrigo. Por sua vez, Miguel herdou as minhas calças e camisas.

A mãe ajeitava as bainhas e as mangas e me moldava ao corpo das roupas (nunca as roupas se moldavam ao meu corpo). Tanto que até hoje, quando vou provar algo, eu não me importo quando está um pouquinho curto ou largo demais, perdoo a imperfeição.

Na infância, vestir significava somente não passar frio. Não correspondia a se embelezar. Calças e casacos ostentavam, sem nenhuma vergonha, remendos de couros e cicatrizes. Cuecas e meias viviam costuradas.

O sapato gozava da importância inexplicável de um carro. Trocava-se a sua sola frequentemente para que continuasse sendo usado. O sapateiro emergia como uma referência insubstituível do bairro, assim como o padeiro, o padre e o médico. Desfrutava da responsabilidade de passar na sapataria depois da aula para buscar as encomendas familiares.

Ocorria dentro de casa a antecipação do testamento em vida. Não se esperava o inventário para partilhar os pertences. Firmávamos uma estranha hereditariedade do vestuário.

Disputávamos a pasta e a carteira velha do pai, brincávamos do faz de conta financeiro com os carnês vencidos. Nada se perdia, tudo trocava de mão, de braço e de perna.

Os agasalhos duravam três gerações. O conteúdo das gavetas mudava de dono e jamais ia fora.

Acho que temos que recuperar, diante da atual crise financeira, o valor emocional dos objetos. Não me importo em ganhar presentes usados, pois serão lembranças com alta carga simbólica. Desde pequeno, aprendi a reaproveitar o amor e valorizar cartas de agradecimento.

Quando não tínhamos dinheiro, na escola, preparávamos cartões para o dia dos pais e das mães, por que não recuperar este artesanato da letra e do desenho no mundo adulto?

Dê seu moletom preferido para alguém do seu círculo de amigos, ou passe adiante um livro de seu gosto ou um CD que harmonizou os seus ouvidos para a saudade. Não se envergonhe de sua pobreza, que seja uma pobreza alegre, repartindo o santuário de sua sobrevivência.

Não sofra com o que não tem, ofereça aquilo que você é.

ESPECULAÇÃO


O solteiro tem um olhar de especulação imobiliária.

Assim como quem procura um apartamento sempre está mirando o alto dos prédios, o solteiro não deixa ninguém passar sem investigar de cima a baixo. Chega a ser pornográfico, mas ele fica com o radar inteiramente ligado para flertes e romances. O sensor está ativado para anúncios. Encara os passantes, de frente e de costas, não se intimidando com nada. Faz as perguntas mais diretas e não desperdiça chance de aproximação. Pede o telefone mesmo antes de revelar o seu nome.

A cara-de-pau do solteiro é assustadora. Corre atrás de portas e de espaços para alojar a sua vida. Transforma beleza em metros quadrados, estuda a geografia da paixão com a ciência dos números. Muito diferente do casado, que tem preguiça até para descer de elevador e buscar a sua tele-entrega e se contenta em deitar no sofá de roupas velhas.

O solteiro é incansável. A mesma determinação de alguém caçando imóvel. Pula de uma festa para outra desprezando o cansaço. Emenda saídas e não diz “não” nunca. Dorme pouco respondendo aos amigos e dando conta das ofertas do WhatsApp. Fala com metade da cidade em duas horas.

Já o casado sofre para responder aos mais chegados e vive arrumando desculpas para não frequentar baladas, ou é a fila ou é o tempo feio ou é a música.

O solteiro frequenta academia e tira selfies de perto. O casado se vangloria da panela de brigadeiro e permite apenas fotos de corpo inteiro e de longe.

O solteiro economiza na semana para gastar no final de semana. É pobre de segunda a quinta, e um milionário de sexta a domingo. Por sua vez, o casado prefere gastar numa churrascaria do que em consumação.

O solteiro quer camarote, o casado quer desaparecer. O solteiro quer isenção, o casado quer promoção. O solteiro é amigo dos porteiros e dos garçons, o casado conhece os atendentes do supermercado e da farmácia.

Se o solteiro come na frente do computador, o casado come na frente da televisão.

Se o solteiro persegue a casa dos sonhos, o casado imagina a reforma dos sonhos.

O casado critica o solteiro, o solteiro critica o casado.

O solteiro deseja se aquietar depois de experimentar muito, o casado não deseja sofrer com o excesso de opções.

O PECADO MAIOR


O orgulho não é apenas um pecado, é uma tirania. É alguém que falsifica a memória para atender ao capricho de seus desejos.
É um pecado invisível, imperceptível na aparência, já que traz confiança e combatividade.
O orgulhoso parece que está bem, mas unicamente não para quieto um minuto para descobrir o quanto está mal.
O orgulho não escuta, não tem a humildade do engano. Vem de pessoas apressadas de certezas, que já buscam convencer o outro antes mesmo de terminar a conversa e acolher o contraponto.
O orgulho ferido sangra a esperança, até desaparecer o futuro.
O orgulho é quando o espelho manda na vidraça, o reflexo vence a reflexão.
O orgulho é mais vaidade do que verdade.
O orgulho nasce do medo e desemboca na intolerância. O medo de perder emprego estimula o preconceito contra os imigrantes, assim como o medo da própria sexualidade arma ataques à homoafetividade.
No orgulho, você odeia quem é diferente, com receio de perder a sua influência.
O orgulho é coisa de gente pequena bancando a grande.
O orgulho transforma a fraqueza em vício.
O orgulhoso converte impressões em fatos e desacredita os fatos com impressões.
O orgulhoso dedica o seu tempo integral aos inimigos.
O orgulho não tem amigos, tem álibis.
O orgulho é previamente a favor ou contra.
No orgulho, não existe senso de humor, pois rir é igualdade social. Quem ri junto jamais se acha melhor que o outro.
A alegria do orgulho é escárnio, uma gargalhada sem mostrar os dentes, articulada no canto da boca.
O orgulhoso se explica ou se justifica em vez de pedir desculpa, não volta atrás para reconsiderar a opinião.
O orgulhoso condena antes de julgar, vinga-se antes de entender o que aconteceu.
O orgulhoso não acha o caminho porque se envergonhou de perguntar.
No orgulho, você se delicia roubando a felicidade do próximo. Ao contrário da tolerância, onde você só é feliz dividindo a felicidade.
O orgulho é a riqueza esmolando, é a fome oferecendo comida, é a sede na chuva, é a penúria na abundância.
O orgulho é avareza. Você esconde o que sente para não ter o trabalho de falar.
O orgulho é saudade engasgada.
O orgulho não conhece a paz depois do perdão. Ou seja, no orgulho você jamais é livre.
O orgulho prepara vinganças reais para dores imaginárias. Sofrerá por aquilo que não aconteceu, e que somente acontece em sua cabeça.
O orgulhoso repete o seu pior dia eternamente para decorar as dores.
O orgulhoso ocupa-se em fingir que está ocupado e fecha as portas de palavras vazias.
O orgulhoso coloca a mão na consciência enquanto os pés chutam o inconsciente.
O orgulhoso vibra mais com o fracasso dos colegas do que com os seus sucessos.
O orgulho é o otimismo da destruição.
O orgulho desafia pela frente e cria a discórdia pela fofoca.
O orgulhoso ganha o poder sem mérito e mantém o poder não se importando com os meios.
O orgulhoso diz que sabe para nunca precisar saber.
O orgulho é egoísmo, você convive com os demais para falar de si.
No orgulho, você corre atrás de um não e foge de todo o sim.
Orgulho é insistir num relacionamento errado para provar que tinha razão.
Orgulho é rastejar com as asas.
Por orgulho, desperdiçamos uma vida (já por amor, multiplicamos a nossa vida).
Quando é orgulho, vivemos a vida do outro. Quando é amor, jamais deixamos de ser.
O amor não precisa de provas, demonstrações, jogos e disputas, isso é coisa do orgulho.
No orgulho, nunca está satisfeito. No amor, você transborda.
O orgulho é um capricho, o amor é destino.
O orgulho é ego, o amor é generosidade.
O orgulho é mágoa, o amor é reconciliação.
O orgulho é ressentimento, o amor é fé.
O orgulho é se prender ao passado, o amor é escolha.
O orgulho é impor o seu projeto, o amor é alterar o seu projeto de acordo com a necessidade.
O orgulho se veste de amor, finge que é amor, é o clone do amor, é o sósia do amor, mas não é amor, é o fracasso do amor.
O orgulho é tão somente um ódio frio.

Poeta e cronista, autor de "Felicidade Incurável" (Bertrand Brasil)
Publicado na revista da Livraria Cultura, dezembro de 2016, edição 107, dossiê Sete Pecados, ps 52-53.

HINO DA DESPEDIDA

Foto de Gilberto Perin

Para Roberta Campos

O altar está arruinado, não há recompensa depois de amar, todas as palavras foram usadas e as mentiras já são velhas, não me venha com promessas, só me deixe passar, com licença, só me deixe passar, quero ir sozinho assim como nasci. Nascerei de novo até cansar de morrer.

Seu olhar perdido não me trará a vontade de lembrar. Seu riso desajeitado não me despertará a ansiedade do abraço. Sou agora insensível às chantagens. Só me deixe passar, quero ir, com licença. Teve várias chances dentro de mim e pensou que eu não iria quebrar. Não tem problema, sou mais leve aos pedaços, não pagarei excesso de bagagem.

Deixe-me passar. Não é ficando na minha frente que mudará qualquer desejo. Não é retornando ao passado que consertará os erros.

O que não percebeu: o perdão era fácil e bastava a sinceridade, o perdão era simples e bastava a verdade, o perdão sempre esteve guardado no sotaque ingênuo da infância.

Não há curiosidade, não há esperança, não enxergo vontade de tentar em seu lugar fingindo que eu sou você. Não somos dois, não seremos um.

Cansei de explicar o que você jamais fez. Cansei de justificar sua ausência. Cansei de estar em dobro quando vinha pela metade. Deixe-me. Nem o sol é educado, a luz vive atravessando a chuva.
Com licença, rir é também chorar, rir é quando a boca chora. Apanhei do amor, mas fui eu que apanhei o amor.

PREGO E PARAFUSO

Arte de Eduardo Nasi

Homem decide e pronto. Não olha para trás. Não faz repescagem. Pode ter vacilado, mas quando define uma posição assume e dificilmente entra em parafuso. Homem é prego, não fica girando nos mesmos temas. Óbvio que se arrepende, mas transforma o erro em silenciosa culpa e resignação. O orgulho não permite que se transforme em caranguejo. Voltar em suas considerações tem um preço alto demais para quem foi criado a não pedir ajuda.
Já a mulher, mesmo quando decide, não termina a dúvida. Continua com o dilema. Diz sim ou não, porém prolonga o plenário com as amigas. Sua resposta é provisória e apenas o início de uma longa conscientização. Acredita que pode pensar com calma, não se prendendo ao tempo. A data de validade de suas opções é eterna.
A preferência pela comédia romântica, recheada de vaivéns, desencontros e lacunas amorosas, é a prova de sua alma irresoluta. Não gosta de histórias fáceis e lineares – prioriza a superação de tabus e preconceitos.
A questão é que ela não encerra qualquer coisa que já foi discutida, o que enlouquece a ala masculina. Voltará com aquele ciúme explicado ou aquela cisma esclarecida.
Ela compra uma roupa e demora um mês para tirar a etiqueta mantendo intacta a possibilidade de troca. Cria uma ronda para ouvir diferentes contrapontos após o seu ultimato. Por isso nunca tem o rosto tranquilo de um destino convicto, mas sempre a intensidade febril de quem está optando. Pode ser uma incerteza de um mês ou de um ano, não apaga jamais o potencial de escolha. Deixa a porta entreaberta para liminares e mandados de segurança.
A cabeça feminina é um julgamento perpétuo do que deve ser. Não há o descanso da derrota e a comemoração definitiva da vitória. Está sempre reabrindo dilemas e cavando encruzilhadas.
Nunca confie que ganhou alguma causa com ela. O balbucio afirmativo do casamento será posto à prova na convivência, assim como uma viagem ou uma proposta de trabalho. Não há questões fechadas. Aceita primeiro para depois pensar melhor com os seus grupos. Coloca a esperança em xeque em nome do realismo.
Pensamento do homem quando morre é enterrado, tem velório e missa de sétimo dia. Pensamento da mulher quando morre ressuscita e tira as pedras do caminho.
Homem é ponto final, mulher é reticência.
Homem diz amém, a mulher diz “pois é”. São religiões diferentes.